8 de maio de 2026

O Legado Zita Carvalhosa

Uma Trajetória de Infinitos Curtas (e Alguns Longas)

Por Maria do Rosário Caetano

Desde sua estreia, ocorrida na primeira metade da década de 1980, Zita Carvalhosa se destacou por sua opção apaixonada pelo curta-metragem, pelo cinema independente e pelos filmes de temática socioambiental, o “Cinema Verde”. Nome de grande relevância no cenário cinematográfico paulista e brasileiro, Zita tinha apenas 22 anos quando, recém-formada no curso de Cinema da Universidade de Paris III, escolheu a produção como ofício. Nunca é demais lembrar que, por mais de quatro décadas, ela encarou o ato de produzir filmes como atividade nobre. Nunca fez dele uma escada para a direção.

À frente da Cinematográfica Superfilmes, criada em 1983 por Pedro Farkas, José Roberto Eliezer, Ricardo Dias e André Klotzel, Carvalhosa comandou importantes realizações do “Cinema Verde”. Em algumas delas, prevalece o socioambiental como sinônimo de ecológico. Em outras, seu sentido é expandido — assim como na Mostra Ecofalante de Cinema, que, desde sua criação, em 2012, é regida por princípios que parecem dialogar com o lema difundido pelo poeta e ativista socioambiental TT Catalão (1948-2020): “O meio ambiente começa no meio da gente.”

No começo da década de 1990, a produtora forneceu ao cineasta Ricardo Dias a infraestrutura necessária para que ele realizasse dois filmes de cunho ecológico — o curta Os Calangos do Boiaçu (1992) e o longa No Rio das Amazonas (1995), ambos protagonizados por Paulo Vanzolini (1924-2013), zoólogo e cientista da Universidade de São Paulo, de quem o cineasta foi aluno durante a graduação em Biologia. O primeiro filme custou modestos US$12 mil, embora tenha deslocado sua equipe até as margens do médio Rio Branco, no estado de Roraima. A equipe documentou, em 16mm, o encontro de Vanzolini com pessoas, bichos e paisagens de Santa Maria do Boiaçu. No Rio das Amazonas colocou, mais uma vez, Dias e Carvalhosa no encalço de Vanzolini, acompanhando a viagem empreendida pelo cientista, mais conhecido como o autor do samba Ronda, pelo Rio Amazonas. A Superfilmes ainda co-produziu Um Homem de Moral (2009), substantiva cinebiografia documental do “compositor nas horas vagas”.

A produtora

Zita Carvalhosa e sua empresa marcam presença nos créditos de curtas, médias e longas-metragens, fruto de sensível soma de valores temáticos, estéticos e éticos. Desde sua criação, a Superfilmes fez questão de revelar e incentivar novos talentos. Nenhum formato era tão adequado à concretização dessa proposta quanto o curta-metragem. Ela apostou na revelação de Andréa Seligmann (Onde São Paulo Acaba, 1995), José Roberto Torero (Amor!, 1994; O Bolo, 1995; A Alma do Negócio, 1996; Morte., 2002), Cao Hamburger (A Garota das Telas, 1988), Nilson Villas-Bôas (A Mulher do Atirador de Facas, 1988), Eliane Caffé (Caligrama, 1995), Chico Teixeira (Criaturas que Nasciam em Segredo, 1995), Flavio Frederico (Todo Dia Todo, 1998), Philippe Barcinski (O Postal Branco, 1997), Gregório Graziosi (Monumento, 2012), Jeferson De (Distraída para a Morte, 2001), entre muitos outros.

No terreno do longa-metragem, Carvalhosa assinou O Cineasta da Selva (1997), de Aurélio Michiles; Tônica Dominante (2000), de Lina Chamie; À Margem do Concreto (2006), Jardim Ângela (2007), Os Sentidos à Flor da Pele (2008) e Cinema de Guerrilha (2010), todos de Evaldo Mocarzel; Como Fazer um Filme de Amor (2004), de Torero; A Casa de Alice (2007), de Teixeira; Obra (2014) e Tinnitus (2022), ambos de Graziosi; Fotografação (2019), de Lauro Escorel; e Carvão (2022), de Carolina Markowicz. Ela ainda produziu, com o canal GNT e a TV Cultura, a série documental O Povo Brasileiro (2000), de Isa Grinspum Ferraz, inspirada no livro homônimo de Darcy Ribeiro. Antonio Candido, Anotações Finais (2024), documentário de Eduardo Escorel, foi seu canto de cisne, já que um câncer a submeteu a um rigoroso tratamento e provocou sua morte precoce em julho de 2025.

O curta-metragem

O sucesso dos filmes que Zita produziu nas décadas de 1980 e 1990 garantiu a ela o aposto de “produtora número um da Primavera dos Curtas”. Foram tantos os prêmios conquistados por seus primeiros filmes e eram tantas as boas ideias da jovem produtora que ela foi escalada para integrar (e comandar) a equipe do Departamento de Cinema do Museu da Imagem e do Som de São Paulo, no qual permaneceu de 1988 a 1995.

Seu trabalho cotidiano a fez perceber que ótimos curtas não dispunham de espaço de exibição e, por isso, não eram vistos pelo grande público. Participante ativa (embora discreta) de festivais nacionais (Brasília e Gramado, em especial) e internacionais (Clermont-Ferrand, na França), Carvalhosa se dispôs a buscar novas vitrines para a efervescente produção dos curta-metragistas que se multiplicavam pelo país inteiro. Organizou, então, a mostra retrospectiva “80 Curtas dos Anos 80”, com os melhores da década.

Em 1986, ela assistira à consagração de três curtas no Festival de Gramado — O Dia em Que Dorival Encarou a Guarda, de Jorge Furtado e José Pedro Goulart; Ma Che Bambina, de Cecílio Neto; e A Espera, de Maurício Farias e Luiz Fernando Carvalho. E o júri, frente à excelência do que assistira, sentiu-se compelido a entregar não um, mas três Kikitos aos melhores filmes. Em 1989, outro acontecimento marcou a história do curta brasileiro: Ilha das Flores, de Jorge Furtado, foi aplaudido de pé por onze minutos e rendeu ao cineasta e sua equipe nove Kikitos. Em fevereiro de 1990, o filme recebeu, em Berlim, um Urso de Prata. No mês seguinte, porém, Fernando Collor assumiu a presidência da República e desmontou, por decreto, dois importantes organismos responsáveis pelo fomento ao audiovisual brasileiro, a Embrafilme e o Concine. A produção nacional, que girava em torno de 100 longas por ano, viu-se reduzida a cinco ou seis títulos, número insuficiente até mesmo para preencher as vagas ofertadas pela competição do Festival de Brasília, quanto mais as de Gramado, que acabaria adquirindo alcance latino-americano. 

Naquele período, os curtas se transformaram nas atrações mais disputadas e valorizadas das competições festivaleiras. Zita Carvalhosa mobilizou, então, sua pequena equipe, tendo Francisco César Filho como seu braço direito, para criar uma vitrine dedicada integralmente ao formato curta. Nascia o Festival Internacional de Curtas Metragem de São Paulo, hoje chamado Festival Kinoforum, que foi crescendo e lotando salas. Anos depois, foi enriquecido pela criação das Oficinas Kinoforum, responsáveis pela formação de jovens cineastas vindos majoritariamente das periferias da grande São Paulo. Por isso, além de quase seis dezenas de filmes, Zita Carvalhosa deixou de herança um festival de grande poder difusor da produção de curtas e uma “escola” formadora, cujas experiências resultaram em longas documentais como Cinema de Guerrilha, fruto do trabalho coordenado pelos cineastas-oficineiros Evaldo Mocarzel e Christian Saghaard.

Zita se orgulhava de ter criado a mais poderosa vitrine brasileira dedicada à difusão de filmes de curta duração, um evento que comandou de 1990, sua data inaugural, até 2025 — ela faleceu semanas antes do início de sua 36ª edição, mas utilizou as forças que lhe restavam na organização do evento.

Zita em seis filmes

Diante da difícil tarefa de escolher entre as 59 produções de Zita Carvalhosa, a Ecofalante privilegiou a diversidade e a disponibilidade de boas cópias para garantir exibições qualificadas.

Onde São Paulo Acaba (1995), de sintéticos 12 minutos, é o título mais antigo da homenagem. Andréa Seligmann deixa de lado a São Paulo dos cartões-postais e dos imensos edifícios da Avenida Paulista para, com fotografia do mestre Aloysio Raulino (1947-2013), documentar o duelo cotidiano daqueles que vivem nas periferias. Pivete e Branco são dois adolescentes que habitam as franjas da metrópole, onde se vê moradias amontoadas e campos de futebol de terra batida. Os garotos falam das “minas”, da festa que está por vir, encontram jovens “sangue bom”, alguns fumam uma “Mary Juana” e se aproximam de armas de fogo. Afinal, é ali onde São Paulo acaba e a guerra começa. A montagem de Paulo Sacramento se dá no ritmo do rap, peça de resistência da trilha musical daquela juventude obrigada a morar num cinzento fim de mundo.

A Alma do Negócio (1996), uma das joias da prolífica década de 1990, foi um dos muitos projetos que Zita produziu para José Roberto Torero, escritor, dramaturgo e roteirista dos mais festejados. Um lindo casal, de dentes e cabelos perfeitos, acorda e estabelece um diálogo composto de frases que apregoam as maravilhas da sociedade de consumo. Imagens de utensílios domésticos e alimentos geram loas publicitárias. Porém, a vida social e doméstica é muito mais complicada do que um comercial de margarina nos faz crer e, da aparente felicidade, surge a outra face dos objetos de consumo. O que era uma comédia romântica protagonizada por um lindo casal (os ótimos Renata Guimarães e Carlos Mariano) se transforma no preâmbulo de um filme de horror. O roteiro de Torero e a montagem de Sacramento resultam em um amálgama perfeito, que se desenrola em apenas oito (densos e tensos) minutos.

Em 1997, a Superfilmes assinou a produção de O Cineasta da Selva, um filme de alma amazônica realizado pelo amazonense Aurélio Michiles. Em seu primeiro longa-metragem, o diretor mergulhou na controversa trajetória do pioneiro do cinema brasileiro Silvino Santos (1886-1970). Nascido em Portugal, o aventureiro-empresário-cineasta ficou conhecido por sua devoção à Amazônia e ao Rio Amazonas. E testemunhou, com sua câmara, o esplendor e a queda do monopólio da borracha, e a destruição da fauna e da flora pela sanha de exploradores da Floresta Amazônica. Naquele tempo (No Paiz das Amazonas foi realizado em 1922, dois anos após Amazonas, o Maior Rio do Mundo), nem Silvino Santos, nem os que o cercavam pareciam preocupados com a preservação da grande floresta tropical. Só se pensava no progresso. A consciência da necessidade de preservar a Natureza só ganhou relevo décadas depois (e, ainda assim, com a categórica oposição de predadores ligados ao garimpo e às motosserras). Para construir seu documentário, Michiles contou com a colaboração do ator José de Abreu, que interpretou Silvino Santos, e com testemunhos dos filhos do cineasta (Lilian e Guilherme Santos), de cinéfilos amazonenses (Joaquim Marinho, Domingos Demasi e José Gaspar), do escritor Márcio Souza e do cineasta Djalma Batista Limongi.

Para fechar a década de 1990, Zita Carvalhosa retomou sua fértil parceria com Ricardo Dias. A Superfilmes produziu (1999), longa documental construído com registros de grandes festas religiosas e rituais praticados por diferentes credos, seitas e cultos, fotografados por Adrian Cooper e Carlos Ebert. O documentário desconstrói a ideia de que “a religião é o ópio do povo”. Sua intenção é mostrar que “a fé tem importância decisiva” na vida das pessoas. Para tanto, o cineasta e sua equipe registraram romarias no nordeste, festas de Iemanjá no litoral paulista, o culto ao Senhor do Bonfim na Bahia, a grande celebração católica na cidade de Aparecida, uma sessão espírita na Uberaba de Chico Xavier e o ecletismo místico do Vale do Amanhecer, criado por Tia Neiva, nos arredores de Brasília. Há espaço, até, para reunião anual da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), além de registros de pregações de pastores evangélicos.

A Superfilmes entrou nos anos 2000 fiel às suas origens: continuou firme em sua intenção de revelar novos talentos. Distraída para a Morte (2001) é fruto desse propósito. Seu realizador, Jeferson De, fazia sua estreia profissional depois de propagar o Dogma Feijoada, manifesto que propunha novos caminhos e procedimentos para o cinema afro-brasileiro. Diretor, roteirista e montador, De uniu três adolescentes negros (Robson Nunes, Fabinho Nepô e Cynthia Raquel), que perambulam, sem destino, por ruas e avenidas da metrópole. 

Por fim, já em 2022, Carvalhosa produziu, com Carvão, a estreia de Carolina Markowicz no longa-metragem. A paisagem-cenário do filme, como indica o próprio título, é uma carvoaria. Dela, Irene (Maeve Jinkings) e Jairo (Rômulo Braga), pais do menino Jean (Jean Costa), retiram seu mísero sustento. Com eles vive um velho doente, pai de Irene, imobilizado por um derrame. Premido pela pobreza, o casal é tentado a aceitar uma proposta aterrorizante: dar cabo do velho para que seu quarto possa servir de esconderijo para Miguel (César Bordón), traficante de origem hispano-americana que irá remunerá-los com o dinheiro que não conseguem obter com a produção de carvão. Antes de tomar a terrível decisão, Irene, que é católica, consultará um padre. O que vemos, neste drama que alguns ousam definir como comédia, é a revelação de aspectos sombrios da alma humana.

Os seis filmes representam uma pequena amostra da vasta trajetória de Zita Carvalhosa e homenageiam, assim, uma produtora que abraçou o curta-metragem e se dedicou a uma filmografia interessada nos problemas socioambientais contemporâneos. 


MARIA DO ROSÁRIO CAETANO é formada em Jornalismo e em Letras pela Universidade de Brasília (UnB) e membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Integra a equipe da Revista de Cinema. É autora dos livros Cinema Latino-Americano: Entrevistas e Filmes (1997), João Batista de Andrade: Alguma Solidão e Muitas Histórias (2003), Fernando Meirelles: Biografia Prematura (2005) e Marlene França: Do Sertão da Bahia ao Clã Matarazzo (2010), e organizadora, entre outros, de UnB Anos 70 – Memórias do Movimento Estudantil (2022) e Coromandel Centenária – Memórias e Afetos (2023).

Serviço:

15ª Mostra Ecofalante de Cinema

Data: de 28 de maio a 10 de junho de 2026

Entrada: gratuita

Site oficial: www.ecofalante.org.br

Redes Sociais: @mostraecofalante