MOSTRA ECOFALANTE DE CINEMA DESTACA FILMES DIRIGIDOS POR CINEASTAS MULHERES E DISCUSSÃO SOBRE ATIVISMO FEMINISTA
Com um total de 104 filmes, representando 27 países, a 15ª edição da Mostra Ecofalante de Cinema destaca obras e debate lutas feministas e questões de gênero. Na programação está uma homenagem à produtora paulista Zita Carvalhosa, falecida em 2025 e uma retrospectiva histórica dedicada à trajetória do Seminário Flaherty, espaço privilegiado de reflexão sobre o cinema documentário e independente, com destaque para o papel central de sua fundadora, Frances Hubbard Flaherty. São dirigidas ou codirigidas por cineastas mulheres 59 – ou 56,7% – das obras.
Considerado o mais importante evento audiovisual da América do Sul focado em questões socioambientais, o festival acontece de 28 de maio a 10 de junho na cidade de São Paulo, ocupando o Reserva Cultural, Centro Cultural São Paulo e mais 28 espaços culturais do Circuito Spcine, sempre com entrada gratuita.
A grande homenageada desta edição da Mostra Ecofalante de Cinema é a produtora Zita Carvalhosa (1960-2025). Importante nome da área audiovisual brasileira, ela assina a produção executiva de 59 séries, longas e curtas-metragens. Também comandou o Kinoforum – Festival Internacional de Curtas de São Paulo e as Oficinas Kinoforum de Realização Audiovisual. A seleção de sua produção com temáticas socioambientais exibida na Mostra inclui os longas “O Cineasta da Selva”, de Aurélio Michiles, “Carvão”, de Carolina Markowicz, e “Fé”, de Ricardo Dias, ao lado dos curtas “Distraída para a Morte”, (Jeferson De), “A Alma do Negócio” (José Roberto Torero) e “Onde São Paulo Acaba” (Andrea Seligmann).
Entre os destaques da programação internacional está “O Grande Lago Salgado”, longa dirigido pela cineasta Abby Ellis, inédito do Brasil e premiado no Festival de Sundance. Tendo Leonardo DiCaprio como produtor executivo, o filme descreve o secamento do Grande Lago Salgado (Great Salt Lake), em Utah (EUA), liberando componentes depositados em seu fundo sob a forma de poeira tóxica e contaminando o ar da região.
Um dos diversos debates programados no festival é “Emergência Climática & Crise Ambiental”, agendado para 28/05. O encontro conta com participação da advogada pública e pesquisadora Erika Pires Ramos, da Rede Sul-Americana para as Migrações Ambientais (RESAMA). O filme exibido antes do debate é o espanhol “Bangladesh Submersa”, da diretora Lucía Benito. Vencedora do prêmio de melhor filme socioambiental no Festival de Guadalajara e inédita no Brasil, a obra acompanha uma família de Bangladesh se preparando para escapar do clima extremo que assola a região em que vivem.
No dia 29/05, o tema do debate é “Colonialismo, Território e Povos Originários: Histórias de saques e violências”, sendo que o filme exibido é “Nossa Terra”, primeiro documentário dirigido pela aclamada cineasta argentina Lucrecia Martel (de “O Pântano” e “A Menina Santa”). Ainda inédito em São Paulo, o longa foi lançado no Festival de Veneza, venceu o BFI London Film Festival e foi premiado no Festival de Locarno. A revista The Hollywood Reporter definiu o filme como uma “crônica contundente” e um “documentário visualmente esplêndido”, destacando a forma meticulosa e expressiva com que o cinema de Martel retrata o roubo histórico das terras da comunidade indígena Chuschagasta e a sua resistência. A programação reserva ainda espaço para outro longa-metragem relacionado a esse debate. Vencedor do prêmio de patrimônio cultural imaterial no festival Cinéma du Réel (França), “Suriname, a Lei do Rio e a do Dinheiro”, da cineasta Lonnie van Brummelen, em parceria com Siebren de Haan e Tolin Alexander, acompanha um barqueiro quilombola na floresta tropical do Suriname que navega entre as tradições ancestrais e o capitalismo moderno. É inédito no Brasil.
Os conflitos na região do Oriente Médio também são temas de dois dos debates programados em 2026. “Oriente Médio: Conflitos, Guerra e Memória” e “Palestina: Apagamentos e Resistências”. O primeiro, programado para 1/06, tem a participação da professora Safa Jubran (USP) e de Mariana Duccini, pesquisadora da área de cinema e arquivo com doutorado pela ECA-USP. Na data, está programada a exibição do longa “Você Me Ama”, no qual a cineasta Lana Daher partiu de mais de 20 mil horas de material de arquivo para contar uma história recente do Líbano através de imagens que ajudaram a formar o imaginário e a identidade de seus habitantes. Lançado no Festival de Veneza e premiado nos festivais Doc Point (Finlândia) e Hamburgo, trata-se de uma viagem íntima por 70 anos de memórias audiovisuais do Líbano, reunindo desde filmes a vídeos caseiros, passando por programas de tv e fotos. Outro título em exibição, inédito no Brasil, dialoga com o tema: “Os Leões do Rio Tigre”, uma coprodução Noruega/Países Baixos dirigida pela realizadora Zaradasht Ahmed. O filme mostra uma cidade devastada durante a batalha pela libertação do Estado Islâmico, e sua luta para curar e preservar sua identidade, cultura e arte, tendo sido selecionado para os importantes festivais de documentários CPH:DOX (Copenhague), DOC NYC (Nova York) e no alemão DOK Leipzig.
Já o debate “Palestina: Apagamentos e Resistências”, em 3/06, tem inspiração no filme “Partition”, da diretora Diana Allan, que mescla imagens de arquivo da Palestina sob ocupação britânica com áudios de refugiados palestinos no Líbano. Selecionado para o prestigioso Festival de Roterdã e inédito no Brasil, o longa revela os fios invisíveis que conectam o passado e o presente da região utilizando uma montagem dialética e uma banda de som assíncrono. Também focado na Palestina, no sueco “Yalla Parkour”, exibido no Festival de Berlim, a cineasta palestina-jordaniana-americana Areeb Zuaiter cruza o caminho de um atleta de parkour em Gaza, dando início a uma jornada onde aspirações conflitantes se cruzam.
O tema do encontro em 4/06 é “Feminismos, Corpo e Lutas de Gênero”, com quatro filmes da programação a ele relacionados. Em “Escrevendo a Vida – Annie Ernaux pelos Olhos dos Estudantes”, a realizadora francesa Claire Simon aborda os diferentes olhares marcados por um forte viés de gênero de jovens estudantes sobre a obra de Annie Ernaux, autora vencedora do Prêmio Nobel de Literatura. Selecionado para o Festival de Tribeca, “Artista dos Rejeitos”, da cineasta Toby Perl Freilich, focaliza o trabalho e o percurso da artista visual Mierle Laderman Ukeles, que combina arte e engajamento para falar do importante tema da gestão de resíduos urbanos e toda sua cadeia de trabalho invisível. Já “Rompendo Rochas”, dirigido por Sara Khaki em parceria com Mohammadreza Eyni, foi indicado ao Oscar de melhor documentário e venceu o grande prêmio do júri para documentário internacional no Festival de Sundance. Sua protagonista é a primeira mulher eleita para o conselho local de seu conservador povoado no noroeste do Irã, gerando reações adversas e acusações sobre suas motivações. Por sua vez, no longa “Sem Dó Nem Piedade”, a realizadora Isa Willinger questiona se o cinema feminino se caracteriza por uma dureza particular. O filme, que investiga poder, violência e representação, mesclando história, crítica e manifesto, conta com participação das cineastas Céline Sciamma, Virginie Despentes, Nina Menkes, Catherine Breillat, Apolline Traoré e Joey Soloway.
Educação, tema discutido em “Escrevendo a Vida – Annie Ernaux pelos Olhos dos Estudantes”, está no centro de outro título assinado por Claire Simon, “Aprender”. Inédito no Brasil, o longa tem como protagonistas professores e seus desafios diários. Reconhecido mundialmente como um dos mais importantes pensadores da pedagogia, o brasileiro Paulo Freire (1921-1997) criou uma pedagogia crítica e libertadora, que transforma a educação em ferramenta de conscientização e transformação social, rompendo com o modelo tradicional de ensino. Ele tem seu projeto de alfabetização de adultos recuperado em “Lendo o Mundo”, obra dirigida por Catherine Murphy e Iris de Oliveira eleita como o melhor documentário no Festival de Gramado e vencedor do Prêmio Corazón Feliz no Festival de Havana. Já “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai, foi a atração de abertura da mostra Generation do Festival de Berlim 2026. Nele, meninas no sertão do Piauí equilibram a infância lúdica com a transição para a adolescência, incluindo seus sonhos e as diferenças de gênero. Educação também está presente nos curtas-metragens brasileiros “Nioladi”, produção do Mato Grosso do Sul dirigida por de Ana Beatriz Leal, e o cearense “Saber Brincar”, de Leticia Diniz.
Saúde mental é discutido em 5/06 no debate “Sociedade do Cansaço: Solidão, Trabalho e a Reconstrução do Comum”, que conta com a presença da professora e pesquisadora Ludmila Costhek Abílio.
Um total de 51 títulos brasileiros recentes foram selecionados para as duas mostras competitivas do evento. São produções representando o Distrito Federal e mais 19 estados: Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Roraima, São Paulo, Sergipe e Tocantins. Para a competição Territórios e Memórias, voltada a curtas e longas-metragens que discutam temas sociais e ambientais no Brasil, estão selecionados, entre outros longas-metragens, “Até Onde a Vista Alcança”, de Alice Villela e Hidalgo Romero, “Minha Terra Estrangeira”, dirigido por Louise Botkay, em parceria com João Moreira Salles e o Coletivo Lakapoy, “Nimuendajú”, de Tania Anaya, e o inédito no Brasil “Mounir”, de Juliana Borges, além de outras duas estreias mundiais: “Benvindos”, de Luana Cabral, e “O Jardim de Maria”, de Jade Rainho.
Em 2026, a Mostra Ecofalante de Cinema dedica seu Panorama Histórico ao legado do Flaherty Film Seminar, iniciativa sediada em Nova York que presta homenagem a Robert J. Flaherty (1884-1951), pioneiro realizador que definiu o cinema documental em “Nanook, o Esquimó” (1922). Criado em 1955 por Frances Hubbard Flaherty, esposa e colaboradora de longa data do cineasta, o seminário tornou-se referência entre cineastas, artistas, curadores e críticos. Intitulada “The Flaherty Way e os Contra-cinemas”, a programação reúne cinco títulos icônicos que passaram pelo seminário, abrangendo diferentes décadas. O grande destaque é “Harlan County: Tragédia Americana” (1976), obra da diretora Barbara Kopple, que venceu o Oscar de documentários e registra, de forma comovente da luta de treze meses entre uma comunidade que luta para sobreviver e uma corporação dedicada aos resultados financeiros. Estão programados ainda o vanguardista “Para Sempre Condenadas” (1987), de Su Friedrich, sobre desejos reprimidos, a culpa católica e a sexualidade lésbica; “Remontagem” (1983), no qual a diretora Trinh T. Minh-há desafia os métodos documentais etnográficos convencionais para desconstruir a representação colonial; e “Sombras Reveladas” (2025), que, a partir de material de arquivo inédito, examina a trajetória de Frances Hubbard Flaherty e seu papel fundamental na construção da obra e do legado do cineasta Robert J. Flaherty. Frances foi uma colaboradora decisiva em diversos filmes do diretor, atuando na produção, na escrita, na edição e, posteriormente, na preservação e difusão de sua obra.
Além das exibições de filmes, estão também agendados na 15ª Mostra Ecofalante de Cinema encontros, bate-papos com realizadores, oficinas e uma masterclass. Seleções de filmes ficam disponibilizadas em duas plataformas de streaming parceiras, ambas com acesso gratuito: Itaú Cultural Play e Spcine Play.
A Mostra Ecofalante de Cinema é viabilizada por meio da Lei Rouanet e do ProAC – ICMS, Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas. O evento tem patrocínio do Itaú, White Martins e da Spcine e apoio da VEJA. A produção é da Doc & Outras Coisas e a coprodução é da Química Cultural. A realização é da Ecofalante, Governo do Estado de São Paulo e do Ministério da Cultura.
“Esta iniciativa é realizada com recursos do ProAC, o Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas.
Neste projeto, foram adotadas medidas de democratização de acesso, tais como:
– A mostra acontece gratuitamente em sua totalidade. Os ingressos são distribuídos antes de cada sessão nas bilheterias das salas de exibição.
– Parte dos ingressos podem ser disponibilizados para os patrocinadores distribuírem aos seus funcionários, parte aos parceiros de divulgação para distribuírem ao público do seu veículo e parte das sessões serão realizadas fora do circuito comercial de cinemas em São Paulo em parceria com o Circuito Spcine (que engloba 20 espaços culturais) e com as Fábricas de Cultura.
– Os debates serão gratuitos. Os ingressos são distribuídos antes de cada sessão nas bilheterias das salas de exibição.
– Os debates serão gravados e disponibilizados no canal do Youtube da Mostra Ecofalante que pode ser acessado através do link: https://www.youtube.com/mostraecofalante.
O fortalecimento do acesso aos bens e serviços culturais, realizados com recursos públicos e por meio de políticas de incentivo, é um compromisso do Governo do Estado de São Paulo com o povo paulista.”