Por Carol Almeida
Cantar e narrar por cima das imagens que os colonizadores fizeram dos seus; se corresponder de longe com um jovem que salta para o céu na contra-gravidade das bombas que caem no chão; acompanhar de perto, em uma zona de massacre, o drama de uma mãe que é separada de recém-nascidos gêmeos pelas forças de um sadismo colonial. São ações distintas, que produzem e se aliam a ferramentas de linguagem completamente diferentes entre si. Partition (Taqsim, 2025), de Diana Allan, Yalla Parkour (2024), de Areeb Zuaiter, e Os Gêmeos de Gaza (Gaza’s Twins, Come Back to Me, 2025), de Mohammed Sawwaf, são três documentários que narram a Palestina a partir de formas e premissas particulares, mas que se encontram no mesmo ponto de interseção: o trauma. Então, antes de chegarmos aos filmes em si e suas especificidades, é importante estabelecer entre eles um terreno comum que, sim, deriva de um trauma nomeado: a Nakba, palavra árabe para “catástrofe”, que, nesse caso, aconteceu em 1948, quando centenas de milhares de pessoas foram retiradas de suas próprias terras e casas para que o Estado de Israel pudesse ser fundado.
Antes de tudo, toda produção de imagens sobre a Palestina, filmada de dentro ou de fora do espaço-Palestina ou do tempo-Palestina, é uma escrita da História a contrapelo, como diria Walter Benjamin: é sempre uma história contada à revelia e mesmo como enfrentamento direto às imagens que serão usadas como narrativas oficiais pelas instituições de dominação. Reunir filmes que se passam na Palestina ou que se endereçam ao território palestino do ponto de vista dos palestinos é sempre um gesto que nasce da teimosia de se desejar vida em contextos de morte. No cinema, isso se traduz como vontade de possuir uma imagem em contextos de apagamento.
Há um conceito importante para este texto. Quando acima se escreve “espaço-Palestina” e “tempo-Palestina”, a intenção é mesmo criar o ruído: existiria um “tempo” específico desse território? Edward Said, famoso escritor e acadêmico palestino, diria enfaticamente que sim. Trata-se de um “tempo perturbado”, ou, como coloca em After the Last Sky: Palestinian Lives, um tempo “disperso, descontínuo, marcado pelos arranjos artificiais e imposições do espaço interrompido ou confinado, pelos deslocamentos e ritmos não sincronizados”. Dessa forma, o que se passa pouco antes da Nakba e tudo que sucede a ela entra num regime temporal marcado por traumas de despejos, mortes e tentativas de apagamento e aniquilamento total de um povo e sua cultura.
Processos de invasão e colonização são, reiteradamente, lidos na chave do território. Quando se invade e se coloniza, pressupomos que o objeto direto do verbo transitivo é “território”, “espaço”, “lugar” ou qualquer sinônimo de onde se cravam arames farpados e muros de concreto. No entanto, com muita frequência, a cinematografia palestina relembra que processos de invasão e colonização são concomitantemente sequestros do tempo. “Onde é a Palestina?” é uma pergunta que só funciona quando entendemos que é igualmente crucial perguntar “quando é a Palestina?”. A resposta é de difícil consenso, uma vez que, dentro ou fora da Palestina, o povo palestino vive um presente que atualiza o passado da Nakba diariamente num cotidiano sem perspectiva de futuro.
Sabe-se que o cinema é, por natureza, uma linguagem que se molda na sua capacidade única de manipular nossas premissas espaciais e temporais. Portanto, se debruçar sobre filmes palestinos é, com frequência, um exercício que nos exige esse deslocamento para o “tempo perturbado” em que importa menos a cronologia das coisas e mais a densidade de tempos sobrepostos. Por isso, a análise dos filmes vai seguir aqui uma anticronologia, começando com aquele que registra os eventos mais recentes, até o que resgata as imagens mais antigas. De certo modo, todos eles circundam o mesmo evento traumático e se projetam a partir dele.
O contexto de produção de Os Gêmeos de Gaza sinaliza as escolhas estéticas feitas para contar essa história. Trata-se de um material que nasce de uma iniciativa jornalística. Inicialmente, as filmagens começam a ser feitas para uma série de curtas documentais da rede de TV Al Jazeera, Witness [Testemunha]. Mas a história que começa a ser documentada ali por duas equipes de filmagem diferentes, uma ao norte e outra ao sul de Gaza, termina se desdobrando em algo muito maior: uma possibilidade de resistência pelos laços mais profundos de afeto familiar.
As câmeras de Ibrahim Al-Otla e Salah Al-Haw acompanham, de um lado, o desespero de uma mulher chamada Rania, que dá à luz trigêmeos exatamente no momento em que o norte de Gaza começa a ser fortemente bombardeado por Israel, no fim de 2023. Do outro, registram a saga das duas crianças que sobreviveram (uma das meninas nasceu morta, com indicativos de que seu frágil e pequeno corpo não havia aguentado o som pesado dos mísseis) e que precisaram ser levadas, às pressas, sem a mãe, às incubadoras que ainda existiam, no sul de Gaza.
Entre a aflição cotidiana de Rania, seu marido e as primeiras filhas do casal, e a saga de parte de sua família estendida que vive em Rafah, sul de Gaza, para achar essas crianças recém-nascidas e cuidar delas até uma chance de reencontro com a mãe surgir, há algo de muito singular em termos da cinematografia recente que se dedica a falar dos acontecimentos pós-outubro de 2023. Talvez esse venha a ser um dos poucos filmes, se não o único, que testemunha por vários meses, de dentro de uma zona de destruição em massa e com câmeras profissionais, o cotidiano de sobrevivência dos moradores de Gaza em meio ao mais absoluto terror. E faz isso num contexto em que todo jornalista com uma câmera na mão era alvo direto do Estado de Israel. Cumpre lembrar que, de outubro de 2023 até o presente momento, a máquina de guerra israelense matou mais de 270 jornalistas palestinos na estreita faixa de terra à beira do Mediterrâneo. Para efeitos comparativos, isso é quase quatro vezes o número de jornalistas mortos em toda a Europa durante os vários anos da Segunda Guerra Mundial. A existência desse filme é, portanto, um acontecimento em si, pelo simples fato de ele ter sido finalizado.
Vemos de perto — e o tique jornalístico de aproximar a câmera em situações de alta carga dramática está muito presente aqui — o drama real de pessoas que precisam montar, desmontar e remontar tendas depois de verem suas casas completamente destruídas; a luta para conseguir latas com fórmulas de leite para recém-nascidos; o desespero de nunca saber se vão conseguir mais uma dessas latas; a precariedade de viver em espaços mínimos sem qualquer tipo de privacidade. Tudo isso produz um empilhamento de ruínas emocionais cercadas por ruínas materiais, o empilhamento da Nakba.
No centro desse drama, porém na periferia dos enquadramentos ocidentais que produzem “humanidade”, está Rania e seus gêmeos: Jowan, uma bebê que aparentemente cresce com relativa saúde, e Hamoud, o recém-nascido mais frágil, que visivelmente demonstra sequelas imediatas de um massacre que o coloca perpetuamente no tempo do trauma. Tempo este que será retomado em uma fala melancólica e resignada de Rania ao fim do filme: “Não há futuro em Gaza. Não há nada aqui para nossas crianças. Elas apenas esperam por sua morte. Todos estamos apenas esperando a morte.”
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Uma das primeiras imagens de Yalla Parkour, narrado em primeira pessoa pela diretora, é uma sequência gravada por uma câmera de celular. Trata-se de uma filmagem de 2015 que se tornou relativamente famosa para quem sempre acompanhou a luta e a resistência palestinas e, no tempo cronológico, acontece antes de outubro de 2023. Na cena, vemos meninos e adolescentes dando piruetas e saltando com o corpo. Eles sorriem para a câmera e gritam “Allahu Akbar” (“Deus é o maior”) enquanto, no horizonte, ao fundo da imagem, vemos grandes explosões tomando Gaza.
Essa sequência funciona, para Areeb Zuaiter, como uma suspensão no tempo. É a partir dela que a diretora, morando nos EUA, conhece Ahmed Matar, um jovem que, como vários de sua geração, aprenderam a praticar parkour nas ruínas de Gaza, que se empilham todas as (várias) vezes ao longo das últimas décadas em que Israel atacou o território. Ahmed Matar é o autor do vídeo que registra esse momento único de meninos que flutuam no ar em desafio às bombas. Nessa conexão entre uma realizadora de cinema palestina em diáspora nos EUA e um realizador de vídeos na prisão a céu aberto de Gaza, produz-se um filme.
A diretora acompanha a trajetória de Zuaiter durante vários anos — o filme segue sua vida até pouco antes dos eventos de outubro de 2023 — e essa relação entre os dois via precárias ligações online serve de sustentação para que a cineasta reative seus arquivos familiares, que a levam a Gaza e ao barulho de mar de sua infância, à terra onde se fotografa o sorriso de sua mãe em alguma festa de família.
O dispositivo da sobreposição, tanto do tempo entre os arquivos familiares e o tempo da Gaza contemporânea, mas, igualmente, da imagem da própria diretora se fundindo ao reflexo dos jovens atletas de parkour em um monitor, se torna um princípio vital do filme, através do qual somos apresentados a uma geração de meninos e adolescentes que percorrem a faixa de Gaza na intenção de desafiar a gravidade: da física e da morte ao redor.
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“O que são ou deveriam ser os arquivos no caso de um povo disperso, sem arquivo estatal, sem Estado, cuja maioria vive em exílio ou sob ocupação e cujos arquivos ‘próprios’ foram destruídos, confiscados ou selados em arquivos coloniais inacessíveis pertencentes àqueles que os desapossaram e ainda os governam com força, são questões difíceis.” É dessa forma que a antropóloga palestina-estadunidense Lila Abu-Lughod, em Palestine: Doing Things with Archives, interroga o estatuto do que se compreende como “arquivos” quando se fala da Palestina.
A disputa por esses arquivos é, talvez, dentro do cinema contemporâneo palestino, a grande questão que move seus realizadores, e isso se dá de forma muito direta em Partition. Aliás, isso diz respeito, inclusive, aos dois outros filmes do programa Palestina: Apagamentos e Resistências. Mesmo que não trabalhem diretamente com aquilo que chamamos de arquivos, todas as imagens que eles produzem na Gaza pré-outubro de 2023 e na Gaza pós-outubro de 2023 se tornam, indiscutivelmente, valiosos documentos de um território que empilha História e histórias nas frestas de pó entre andaimes derrubados.
Partition é formalmente o mais inventivo dos três filmes, justamente porque a “dispersão” palestina é impressa como uma linguagem, um modo específico de organizar as imagens. Isso se dá ora pelo modo de enquadramento dos arquivos (de vez em quando, vemos uma janela circular que simula a observação de luneta da História), ora pelas músicas cantadas na voz da artista Amal Kaawash, que sobrepõe uma melancolia à gramatura da memória, ora pelo uso de testemunhos que prescindem de qualquer visualidade, ora pelo desgaste material do tempo impresso em rolos de filmes, criando imagens que, por vezes, parecem se transformar em abstrações do próprio tempo e, claro, por um dos elementos formais mais importantes do filme: a leve dissincronia entre aquilo que é falado e aquilo que é visto. Como se o discurso da lembrança sempre estivesse um pouco atrás ou um pouco adiante do registro da câmera do colonizador.
Sim, trata-se de um filme, como anuncia a cartela de abertura, feito inteiramente com imagens de toda a Palestina, do rio Jordão ao mar de Gaza, registradas entre 1917 e 1948 pelo Império Britânico, antes que eles passassem o bastão e a espada aos sionistas. O trabalho de montagem, que é da própria diretora, é um exercício sofisticado de, muito mais do que produzir significados, nos envelopar de sensações, ranhuras, dissonâncias.
Ao fazer uso desses documentos audiovisuais que restaram — e que geralmente estão na posse dos colonizadores, sejam eles ingleses ou israelenses —, diretores palestinos como Kamal Aljafari, Jumana Manna, Emily Jacir, Reem Shileh (nos documentários) e Larissa Sansour e Annemarie Jacir (na ficção) vêm desafiando as premissas de como utilizar os arquivos para fins de produção de futuro, em vez de apenas documentos que resguardam um passado. Existe Palestina e sempre existirá. “Há múltiplas, diversas e variadas imaginações arquivísticas produtivas, mas apenas algumas delas desafiam de forma bem-sucedida os limites do raciocínio histórico em ativar o arquivo como uma força orientada pro futuro”, relata a pesquisadora Gil Z. Hochberg, em Becoming Palestine: Toward an Archival Imagination of the Future, quando se refere ao modo como esses artistas palestinos estão reformulando essas imagens.
A diretora de Partition, Diana Allan, que é professora de Antropologia na McGill University, no Canadá, e cofundadora do projeto Nakba Archive, pode certamente entrar nesse grupo seleto de realizadores palestinos que ativam os arquivos como uma “força orientada para o futuro”, leia-se, como uma construção elaborada de imaginação a partir de documentos. E, ainda que, em diversos momentos, seu filme lembre as estratégias de “sabotagem” usadas por Kamal Aljafari na lida com os arquivos, ou mesmo me leve ao compasso poético de que a diretora argelina Assia Djebar faz uso em A Zerda e os Cantos do Esquecimento (La Zerda ou Les Chants de L’Oubli, 1982), existe algo muito original na forma como ela vai nos colocando gradualmente, sem pressa, nesse locus suspendido de um povo que resiste, diariamente, ao sequestro do seu espaço e do seu tempo.
CAROL ALMEIDA é pesquisadora independente, professora e curadora de cinema. É Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação na UFPE, com pesquisa centrada no cinema contemporâneo brasileiro. Faz parte da equipe curatorial do Festival Olhar de Cinema desde 2017, da Mostra de Cinema Árabe Feminino e da Mostra que Desejo, ambas desde 2021. Foi uma das curadoras da Mostra Todd Haynes (RJ, SP e Brasília/2026), bem como da mostra Nossa Terra, Nossa Voz, disponível na Spcine Play. É membro da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema.
Serviço:
15ª Mostra Ecofalante de Cinema
Data: de 28 de maio a 10 de junho de 2026
Entrada: gratuita
Site oficial: www.ecofalante.org.br
Redes Sociais: @mostraecofalante