Por Daniela Chiaretti
O brasileiro Carlos Nobre, um dos mais renomados climatologistas do mundo, repete que os cientistas climáticos, diante da gravidade do atual cenário, não usam mais a expressão “mudança do clima”, e sim “emergência climática”. Em 2024, confessou, em uma entrevista a O Estado de S. Paulo, estar “apavorado”, porque a crise climática explodiu mais rápido do que a Ciência previu.
Nobre deu dados eloquentes. Vivemos a maior temperatura que o planeta já experimentou em 100 mil anos. Os eventos climáticos são mais intensos e frequentes do que em qualquer outro momento desde que existem civilizações, há dez mil anos. A realidade está se provando mais sombria do que os modelos de cenários de aquecimento global estimaram.
O aumento da temperatura previsto pelas modelagens seria de 1,5°C em 2028, segundo um dos piores cenários traçados pela Ciência, mas a meta já está prestes a ser superada. O que os cientistas esperam agora é que esse limite, que seria o mais seguro para evitar catástrofes maiores e a quebra de padrões climáticos com consequências imprevisíveis, seja superado pelo menor tempo possível e por valores baixos.
O sueco Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para a Pesquisa de Impacto Climático, na Alemanha — e um dos mais famosos climatologistas do mundo —, costuma lembrar que cada décimo de grau a mais no termômetro global representará muito sofrimento para muitos. Isso já está acontecendo.
Em novembro de 2025, em Belém, durante a conferência sobre mudança climática das Nações Unidas, Rockström alertou que o aquecimento global pode atingir 3°C até o fim do século, colocando em evidência a perda de resiliência dos sistemas terrestres. Enfatizou que sete dos nove limites planetários de segurança já foram superados e que é urgente uma redução anual de 5% nas emissões a partir de 2026. Ou seja, já.
Seis meses depois da COP30, o sueco diz não só estar mais preocupado, mas “decepcionado com um mundo que não enxerga o que está escrito na parede à nossa frente. Deveríamos ter um mundo que se mobilizasse e dissesse: basta! Mas, em vez disso, estamos investindo todo o dinheiro na compra de recursos militares e continuamos a subsidiar petróleo e gás”, revelou, em entrevista ao Valor Econômico.
Esta frustração, de quem sabe o que está acontecendo e teme o que não pode prever, é expressa claramente em O Grande Lago Salgado (The Lake, 2025). O filme mostra um dos impactos da emergência climática. O Grande Lago Salgado, que fica em Utah, nos EUA, está secando. É o que está acontecendo também nos 120 lagos salinos ao redor do mundo, até agora sem nenhum final feliz. No caso de Utah, há entre três e cinco milhões de pessoas vivendo às margens do Grande Lago Salgado. A água abastece fazendas da região e serve ao consumo humano. Aves fazem ninhos, raposas circulam por ali. Agora, muitas espécies estão ameaçadas. O lago está entrando em colapso.
O documentário de Abby Ellis nos mostra três pesquisadores que observam sua degradação ao longo dos anos e se desesperam. A areia do lago tem elementos carcinogênicos e o vento a espalha por todas as partes. Eles buscam o poder público, se esforçam para sensibilizar a comunidade, procuram recursos para monitorar o desastre. Mas ninguém os ouve. “Esse é o chamado da nossa espécie no Antropoceno”, diz o ecologista Ben Abbott aos colegas. “Somos a única espécie que pode fazer algo”.
O cientista atmosférico Kevin Perry, que pesquisa o potencial de perigo das tempestades de areia do leito do lago, diz, em determinado momento: “Como cientista, há coisas que sei, outras de que suspeito e outras que espero que não sejam verdade”. E arremata: “Quando temos que passar mensagens para públicos diferentes, existe a comunidade científica, onde se tem que ficar com o que se sabe. Com a comunidade política, tem que se falar do potencial. E o público em geral, temos que conscientizar, mas não necessariamente alarmar, a não ser que exista algo que possa ser feito”.
Eis o resumo do drama da comunicação da emergência climática. Os cientistas devem contar tudo o que sabem e aquilo de que suspeitam? Se for assim, criarão paralisia e depressão nas futuras gerações; se não for assim, não há pressão para fazer o que é preciso. Qual o tom? Qual a medida?
A luta para salvar o Grande Lago Salgado mostra a interconexão entre a emergência climática, que altera os recursos hídricos, a poluição ambiental e os efeitos na saúde pública, na biodiversidade e na economia. A poeira causa problemas respiratórios, crises de asma e pode estar na base do aumento de casos de câncer e acidentes cardiovasculares. Os imóveis da região perdem valor. Os cultivos agrícolas correm risco. Está tudo conectado.
E o mundo sente falta de lideranças que consigam olhar para além do calendário eleitoral e procurar agir em situações de tragédias anunciadas que podem ser mitigadas, com uma visão de longo prazo. O filme mostra quando os pesquisadores finalmente conseguem convencer o governador de Utah, Spencer Cox. O contexto político e social do documentário é particularmente interessante. Utah é um estado republicano e mórmon. A batalha para fazer o inusitado — recolocar água no lago — é discutida nesse tecido social. É mais comum haver negacionistas climáticos entre republicanos, e nem sempre a fé fala a mesma língua da Ciência. Só que a emergência climática exige um enfrentamento global. Um mundo polarizado é um enorme desafio para a crise — não dá para salvar só metade do planeta. Na emergência climática, o nexo é local, regional e global.
Do outro lado do mundo, Bangladesh, um dos países mais planos do globo, é extremamente vulnerável a inundações, ciclones e ao aumento do nível do mar. Tem quase 180 milhões de habitantes, mais do que a Rússia, vivendo em um território pouco maior do que o Amapá. Em Daca, a capital, moram mais de 36 milhões. Milhares vivem mal, em assentamentos informais, acomodados como possível em casas de lata.
Bangladesh esteve sempre no ranking dos países mais pobres do mundo, mas a situação melhorou um pouco recentemente graças à indústria têxtil, às remessas financeiras de cidadãos que vivem no exterior e mandam recursos para suas famílias, e ao setor agrícola. Mas 62 milhões de pessoas, um terço da população, vivem logo acima da linha da pobreza. Desastres climáticos ameaçam essa gente diretamente.
O documentário espanhol Bangladesh Submersa (Black Water, 2025) mostra essa realidade exasperante desde a primeira cena. Um homem que conduz um auto-riquixá com um megafone vai gritando à população do vilarejo que uma grande tempestade está a caminho e que todos devem buscar abrigo. Uma família procura proteger sua casa de lata. O marido bate pregos nos pontos frágeis apontados pela mulher. Ambos têm água cobrindo os calcanhares. Nem bem passa a tempestade e ouve-se outro aviso. Dessa vez, o alerta é de ciclone. Tudo é água ao redor, tudo é rio. O rádio diz que, na última tormenta, 48 pessoas morreram afogadas e 11 foram picadas por cobras. A família vive com água nos joelhos.
Os vilarejos perto dos rios estão afundando. Muitos migram para as cidades. Daca já está inchada e tem problemas superlativos. A protagonista do documentário, Lohki, procura a ajuda de uma conhecida que vive na capital. Vai para lá esperando encontrar trabalho e ajudar a família. Encontra um quarto em um local dividido por cinco famílias. Só há um banheiro para todos e um fogão, com duas bocas. “Tudo de que eu me lembro logo irá submergir”, diz um dos personagens do filme de Lucía Benito.
A crise do clima amplifica as crises que já existem. Se há conflitos por água em determinada região, o cenário tende a piorar. Se há dificuldades de moradia, novos contingentes populacionais agravarão a situação. Há que se equacionar pautas de justiça climática e racismo ambiental, da necessidade urgente de adaptação aos impactos climáticos, da criação de cidades mais resilientes. Nada é fácil, tudo é necessário.
Desastres climáticos causaram cerca de 250 milhões de deslocamentos em dez anos no mundo, o equivalente a 70 mil deslocamentos por dia. Inundações que assolam o Sudão do Sul e Bangladesh, ondas de calor recorde no Quênia e no Paquistão, ou a escassez de água no Chade e na Etiópia levam comunidades já frágeis ao limite. Essas são mensagens do relatório No Escape II: The Way Forward, da agência da ONU para Refugiados, Acnur. Mulheres e crianças são quem mais sofre. Pessoas em deslocamento muitas vezes são acolhidas em regiões tão expostas à crise climática quanto seus locais de origem — cenário que Bangladesh Submersa mostra claramente.
Eventos climáticos extremos afetam, também, hábitos antigos e tradições culturais. É o que vemos em Inverno Implacável (Iron Winter, 2025), documentário de Kasimir Burgess rodado na Mongólia, entre as populações nômades do Vale Tsakhir. Desde tempos ancestrais, os mongóis levam seus cavalos a uma migração anual para fugir dos invernos duríssimos, encontrar novos pastos e preservar o verde próximo às comunidades. “Seis anos atrás este hábito foi abruptamente interrompido. Só uma família quer reviver a tradição”; assim começa o filme.
Inverno e frio, neve e cavalos, céus azuis e tempestades assustadoras, luares e uivos de lobos acompanham alguns homens da mesma família pelas montanhas, com centenas de cavalos de outros comunitários. A jornada é dura, duríssima. “Humanos são mais perigosos que lobos. Não há dúvida de que a Mãe Natureza está brava”, diz o mais velho da família.
“Com a natureza não se negocia”, costuma repetir António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas. O grupo monta sua ger, a tenda circular, desmontável e portátil, usada há milhares de anos pelos nômades da Ásia Central. O teto é cônico, as paredes, de treliça. Os cavalos ficam fora, ao relento. No frio.
O tempo começa a armar nevascas cada vez piores. O grupo se reduz a dois jovens primos: os mais velhos se dão conta de que não podem mais seguir e retornam às suas comunidades. Os rapazes seguem com os cavalos. O grupo, às vezes, parece linhas de formigas em um chão todo branco; às vezes, lembra caravanas de camelos no deserto — só que, aqui, são cavalos e neve.
O vento sopra cada vez mais forte. As tempestades de neve são recorrentes e implacáveis. Quando passam, os jovens encontram potrinhos mortos, éguas congeladas. Tiram a crina dos cadáveres. São escalpos para mostrar aos donos o que aconteceu. É tudo muito triste. E há 2000 cavalos para salvar.
Quando a angustiante viagem termina, um dos jovens decide ir viver na cidade. Toma banhos quentes de chuveiro, corta o cabelo na barbearia. Usa roupas da zona rural enquanto outros jovens passam de jeans e mochila. Ele procura trabalho, mas não tem experiência. Encontra um conhecido que é funcionário de um matadouro de cavalos. “Pastores de cavalos não se acostumam. Matar cavalos é muito difícil para nós. Você não pode ir lá”, aconselha.
A crise climática é disruptiva. Tem o potencial de destruir modos de vida milenares e acirrar preconceitos. Invernos implacáveis na Mongólia deixaram milhares de pessoas empobrecidas e mataram quase 7,5 milhões de cavalos. Em regiões polares, a emergência climática traz outros problemas. Ursos polares podem pesar 800 quilos e ser aparentemente fofinhos, mas usam seu peso para quebrar o gelo e as camadas de gordura fazem com que sobrevivam no Ártico. Vivem de comer focas, carcaças de baleias, morsas e belugas. Mas, para isso, é preciso que se forme gelo no mar, ou eles são condenados a vagar em terra.
O Urso Inconveniente (Nuisance Bear, 2026) conta a história de um urso jovem, de quatro anos, que vive no ártico canadense, no extremo norte de Manitoba, perto de Churchill, a “capital dos ursos polares no mundo”. É um belo filme, dirigido por Gabriela Osio Vanden e Jack Weisman, e narrado em inuktitut por um ancião inuíte, Mike Tunalaaq Gibbons. Acompanhamos a história desse Avinnaarjuk, um jovem urso que luta para se virar sozinho em um mundo com pouco gelo. “Existe um entendimento ancestral de que ursos e humanos são o mesmo, poderosos e perigosos. Por gerações mantivemos distância uns dos outros. Esse mundo não existe mais”, narra Mike Tunalaaq.
Como o gelo não se forma, o urso tem que ficar em terra. Quanto mais tempo fica em terra, mais perigoso ele se torna. Vai para a cidade, tenta abrir portas, caça comida no lixão. Guardas florestais o espantam com rojões e buzinas. Turistas o fotografam. Ele corre, se assusta, vai até a orla do mar. Não tem gelo, ele volta. Tem fome.
As populações nativas têm uma cota para matar ursos e fazem um sorteio todos os anos para escolher o caçador ou a caçadora. Mais ursos se aproximam das cidades árticas. Machos, fêmeas e filhotes. “O urso é um navegante do passado, navegando em um labirinto do presente”, resume o líder inuíte.
A natureza selvagem tão próxima dos humanos é outra face assustadora da emergência climática. Pode vir na forma de novos vírus, que saltam da floresta com o avanço do desmatamento e do calor, e tem o potencial de provocar epidemias e pandemias. Pode vir na forma de mamíferos famintos, de 800 quilos — e que não têm culpa alguma por estarem presos na mesma armadilha que nós.
Carlos Nobre e Johan Rockström são só dois cientistas de uma grande comunidade de pesquisadores que dizem que já vivemos em um novo clima. Repetem que o mundo tem que sair da dependência dos combustíveis fósseis, que alimenta a emergência climática. Dizem que ainda dá tempo de evitar mais catástrofes, desde que a ação aconteça agora, seja ousada, urgente e veloz. Depende de nós.
DANIELA CHIARETTI é repórter especial do Valor Econômico desde 2004. Trabalhou na Gazeta Mercantil, Veja, Folha de S.Paulo, UOL e Marie Claire. Cobriu a RIO92 e todas as COPs de clima desde 2008. Esteve em 55 países, além de no Ártico e na Antártica, escrevendo sobre os impactos da crise climática. Ganhou diversos prêmios, como o Esso de Informação Científica de 2011, e foi condecorada em 2019 pela França com a Ordem Nacional do Mérito por seu trabalho.
Serviço:
15ª Mostra Ecofalante de Cinema
Data: de 28 de maio a 10 de junho de 2026
Entrada: gratuita
Site oficial: www.ecofalante.org.br
Redes Sociais: @mostraecofalante