11 de maio de 2026

O Espaço da Indignação

Por Bruno Carmelo

Quando se pensa no cinema político, sobretudo entre os documentários, talvez seja consenso pressupor que os projetos nascem de uma indignação. Afinal, raros filmes partem do exemplo positivo, propagandeado enquanto modelo aos demais — caso em que as obras costumam ser taxadas de panfletárias, publicitárias ou institucionais. Já as iniciativas voltadas a um modelo político ou social com o qual não se concorda exigem um verdadeiro esforço de argumentação e contextualização.

A vasta maioria dos longas-metragens selecionados na 15ª Mostra Ecofalante de Cinema deriva de um aspecto sobre o qual os criadores estimam necessário alertar o espectador — seja um interlocutor presumido ignorante no tema, seja apenas alguém pouco acostumado a refletir a respeito. Mesmo assim, dentro do espectro do filme-denúncia, há incontáveis ferramentas de linguagem e posicionamentos possíveis, ilustradas pelo programa Democracia, Ética e Justiça.

Um modelo clássico, e bastante eficaz em termos de comunicação, reside na escolha de se posicionar junto às vítimas de uma injustiça. Estas ganham a oportunidade de demonstrar sua perspectiva quanto ao ocorrido — sempre contrária à versão oficial dos fatos, que tende a minimizar ou desculpar os atores de alguma agressão social e/ou ambiental. Trata-se de uma linguagem da empatia e da cumplicidade. O cinema, nesse caso, coloca-se a serviço de uma verdade tida como desconhecida ou sub-representada.

O Silêncio da Terra (El Silencio de la Tierra, 2025) fornece um bom exemplo dessa abordagem. A coprodução entre Espanha, França e Bélgica se concentra em três países latino-americanos: Honduras, México e Brasil. Em comum, essas sociedades, marcadas por forte desigualdade social, possuem um histórico de perseguição a ativistas ambientais por parte de grandes corporações ou de governos antidemocráticos. 

Berta Cáceres, em Honduras, Paulo Paulino Guajajara, no Brasil, e Ildefonso e Aldo Zamora, no México, foram exterminados por sua denúncia de violações políticas, ambientais e de direitos humanos. O projeto salta, de maneira bastante ágil, de um contexto a outro, aproximando as realidades desses países por meio da dificuldade (e da necessidade) de manter a luta contra forças opressoras. No segmento brasileiro, a atenção ao extermínio dos povos indígenas permite que a história de Paulo Paulino Guajajara espelhe a situação das comunidades originárias por todo o território nacional.

Na costura das três histórias, importa ao criador nomear seus oponentes, expondo seu rosto, sua voz, além de documentos atestando a gravidade dos atos a eles imputados. O ex-presidente Jair Bolsonaro é citado diretamente devido à política avessa à demarcação de terras indígenas, enquanto incentivava a grilagem e a mineração. Cada governante ou empresário mencionado é, em seguida, devidamente inserido em um contexto sociopolítico, sobretudo de ascensão da extrema-direita. Em comum, esses agentes de violência sustentam um discurso desenvolvimentista, que serve de argumento retórico para o extermínio de determinados grupos sociais.

O progresso, justamente. Em nome desse termo percebido com facilidade enquanto algo positivo e necessário constrói-se a falácia de uma opção excludente: ou se escolheria o progresso no país, ou a manutenção das terras indígenas; ou se acompanhariam as tendências de tecnologia e mercado, ou se preservaria o meio ambiente. As duas opções, em simultâneo, não seriam possíveis. Além de se tratar de um discurso facilmente retorquido por tantas associações e pesquisas científicas, ele funciona tão somente para mascarar o desprezo por indivíduos considerados menos importantes ou descartáveis para o tecido social.

Esse raciocínio se estende a um documentário radicalmente distinto. Desmascarando Elon Musk (Elon Musk Unveiled – The Tesla Experiment, 2025) ataca um líder ainda mais poderoso — ninguém menos do que o homem mais rico do mundo. O diretor italiano Andreas Pichler aproveita a expressiva quantidade de dados vazados por Lukasz Krupski, ex-funcionário da Tesla, que foi afastado por não concordar com alegadas mentiras e segredos da corporação. Logo, o filme procura desvendar o modus operandi do bilionário, que consistiria em efetuar grandes anúncios públicos e midiáticos prometendo criações inéditas. Entretanto, a tecnologia alardeada ainda não estaria à altura das promessas feitas, o que teria levado a uma série de produtos falhos —no melhor dos casos — ou letais, em situações extremas. 

Os veículos autônomos, que dispensam a presença de um motorista, constituem o foco da investigação. Diversos ex-funcionários acusam a Tesla de mortes provocadas por erros no sistema de navegação que foram, porém, ocultadas para não prejudicar o valor de mercado de Musk e suas marcas. O proprietário é descrito enquanto um sujeito autoritário, incapaz de escutar seus engenheiros e desenvolvedores. Ele teria perseguido os funcionários dispostos a denunciar as violações da empresa, incluindo ameaças de morte aos trabalhadores e seus familiares — acusações negadas pelos representantes legais do bilionário. 

Assim, enquanto O Silêncio da Terra se posicionava junto às vítimas diretas de uma injustiça, convertendo-as em protagonistas, no filme sobre Elon Musk, o pretenso agressor se torna o personagem principal — embora ausente, à revelia. Ao diretor, importa menos conversar com as pessoas diretamente impactadas pelas falhas do veículo automatizado do que acusar o sujeito que aprovou tais máquinas. No lugar de um apelo à empatia e à solidariedade — como se encontrava no projeto acerca da América Latina —, o longa-metragem alemão recorre ao nosso sentimento de ira, particularmente eficaz em tempos de redes sociais.

Para tratar de um homem que dispõe de amplos recursos financeiros e trânsito facilitado dentro da política norte-americana — tendo, inclusive, participado do governo Trump —, o cineasta estima necessário encontrar uma linguagem à altura. Pichler não efetua pequenas insinuações nem recorre a subentendidos. Prefere a chave de um segredo escandaloso, cuja revelação exigiria um teor estético equivalente. Para um crime chocante, uma linguagem chocante. Isso implica em acusações frontais e num esforço visível de atacar não apenas um pensamento corporativo amplo, mas um indivíduo em particular.

Desta maneira, pode-se falar no cinema enquanto ferramenta para uma disputa de narrativas, buscando equilibrar, o máximo possível, o poderio de comunicação e marketing das principais corporações mundiais. Inversamente a tantas pessoas que veneram o empresário sul-africano, erguido ao patamar de ícone de um progresso acelerado e desumanizado, o autor prefere apresentar as manchas nesse percurso. O sujeito que se vende como símbolo inegável de desenvolvimento, com seus veículos espaciais, satélites e carros ousados, esconderia falhas estruturais gravíssimas por trás desses supostos avanços.

Enquanto a primeira obra se volta à solidariedade aos oprimidos e a segunda prefere a fúria contra os opressores, Soldados da Luz (Soldaten des Lichts, 2025) opta pelo caminho mais arriscado. O filme de Johannes Büttner e Julian Vogel propõe um olhar crítico para os grupos de extrema-direita, mas em um filme realizado com eles, junto deles. Em oposição ao discurso sobre Elon Musk, que obviamente não participava do filme, este documentário alemão acompanha a longa estadia (autorizada e incentivada) dos criadores no interior de um grupo autointitulado Reino da Alemanha.

Trata-se de uma organização de viés sectário, que nega a República Alemã, a qual batizam de “território ocupado”. Avessos à política vigente e opondo-se a conceitos tão amplos quanto a imigração, o pagamento de impostos e a saúde pública, os idealizadores criam “sua própria nação”, onde podem agir segundo regras próprias. Essa autonomia permite a David Ekwe-Ebobisse, conhecido como Mr. Raw, implementar seu regime particular na condição de líder de uma pequena comunidade autossuficiente.

Suas ideias fogem à caricatura esperada dos líderes supremacistas. O homem negro encara as críticas à sua gestão como provas de racismo e prega o veganismo como única forma de reparar nossa dívida com os animais. Ao mesmo tempo, defende que a Terra é plana, aposta nas criptomoedas, inventa dietas sem comprovação científica e propagandeia incontáveis teorias da conspiração, como seitas satânicas explorando crianças e a tese de que apenas 13% dos habitantes na Terra seriam “pessoas reais”.

Mas por que ele aceitaria a presença de cineastas assumidamente contrários às suas práticas dentro do grupo? A resposta se encontra na soberba e na autoconfiança do protagonista. Seguro de suas habilidades de comunicação, Mr. Raw acredita poder utilizar as imagens a seu favor, cooptando o filme e voltando-o contra o propósito para o qual foi concebido por Büttner e Vogel. Ele enxerga a obra enquanto oportunidade de revelar sua vida saudável, suas práticas legalizadas e, em consequência, conquistar novos adeptos.

O resultado se assemelha a um xadrez ético e moral, jogado a partir da estética cinematográfica. Os diretores nunca atacam o personagem principal, porém revelam instantes de evidente ilegitimidade do movimento. Em outras palavras, criam o palco para que o protagonista se comprometa sozinho. A tensão deste documentário com ares de suspense nasce precisamente da disputa de poderes no interior da narrativa: quem controla o discurso do filme, a direção ou o protagonista, presente na quase integralidade das cenas?

Nos três filmes, a morte se torna a comprovação da gravidade percebida pelos criadores. Ao invés de alertarem para riscos iminentes, concentram-se em tragédias ocorridas, enquanto exemplos centrais dos abusos cometidos. O Silêncio da Terra utiliza o assassinato de ativistas como eixo de sua defesa. A morte de Naibel Benavides devido a um erro de cálculo dos veículos autônomos da Tesla serve de exemplo fundamental para a argumentação contra as práticas de Elon Musk. Por fim, a morte de Timo, um seguidor de Mr. Raw, assume a função de epítome dos perigos representados pelo “Reino da Alemanha”.

O rapaz se uniu ao grupo devido às dificuldades em enfrentar o que chamava de Escuridão. Conhecido pela adesão obsessiva a cada nova descoberta (nas palavras de sua mãe), Timo abraçou a iniciativa extremista, tornando-se um assistente exemplar de Ekwe-Ebobisse. Isso significava aderir ao veganismo (para limpá-lo dos vermes que ele supostamente teria no cérebro devido ao consumo de carne), mas também praticar extensos períodos de jejum. Algum tempo após a filmagem, o rapaz faleceu, pesando pouco mais de 50 kg. 

Os documentaristas tomam a precaução de não imputar toda a responsabilidade pela morte do jovem às atividades de Mr. Raw, embora sublinhem a associação entre ambos. Nestes três filmes, uma vez que a tragédia ocorre e as promessas de desenvolvimento (no corpo, na sociedade, na tecnologia, no meio ambiente) se provam contraproducentes, os autores estimam atingir o núcleo de sua argumentação. O falecimento ou extermínio de pessoas se converte no ponto sem volta das práticas abusivas, ilusórias ou irresponsáveis dessas lideranças masculinas e despóticas.

Em geral, os agressores dos longas-metragens citados partem de uma descrença na política tal qual a conhecemos. Manifestam uma revolta contra as leis ambientais que lhes impedem de extrair minerais em terras indígenas, contra as regulamentações de invenções tecnológicas, contra a legislação fiscal e a imigração em países europeus. Incapazes de enxergar uma solução eleita pela maioria, esses sujeitos e grupos ora exterminam os adversários (caso dos empresários e políticos de O Silêncio da Terra), ora unem-se a líderes antidemocráticos que os representem (o elo entre Musk e Trump). Ou, ainda, criam sua sociedade paralela, delirante, onde estabeleceram suas regras novas. “Isso não é crime, porque não foi cometido na República da Alemanha”, argumenta Mr. Raw. 

Já os cineastas, todos eles politizados e avessos aos poderosos, adotam caminhos distintos para expor seu ponto de vista — concentrando-se nas justificativas de um lado ou de outro do debate; na imersão epidérmica ou no distanciamento racional. Essa riqueza de caminhos (também manifestada em muitas outras estratégias, exemplificadas pelas demais obras da 15ª Ecofalante) comprova a pluralidade fundamental do cinema político, permitindo uma reflexão sobre o posicionamento ético da arte perante o mundo.

BRUNO CARMELO é crítico de cinema desde 2004, membro da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema). Mestre em teoria de cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle — Paris III, escreveu para veículos como AdoroCinema, Papo de Cinema e Le Monde Diplomatique. É professor de cursos de audiovisual, autor de artigos sobre cinema e criador do site Meio Amargo.

Serviço:

15ª Mostra Ecofalante de Cinema

Data: de 28 de maio a 10 de junho de 2026

Entrada: gratuita

Site oficial: www.ecofalante.org.br

Redes Sociais: @mostraecofalante