Por Camila Vieira
Os quatro longas-metragens que compõem o programa Feminismos, Corpos e Lutas de Gênero lidam com questões pertinentes às mulheres como experiência vivida. Nos gestos repetidos, nos silêncios herdados, nas expectativas que moldam corpos e trajetórias, acontecem transformações que raramente se anunciam de forma explícita, mas que estão presentes no cotidiano das personagens retratadas. Os filmes deslocam olhares em relação ao que foi naturalizado para mulheres, como o cuidado, a delicadeza, a obediência e a contenção. Os corpos femininos carregam marcas de normas sociais, mas também abrigam gestos de recusa e invenção. As lutas de gênero não se dão apenas nos grandes acontecimentos ou nas mudanças visíveis. Elas envolvem pequenas escolhas, negociações silenciosas e desobediências que deslocam estruturas.
Há uma dimensão quase imperceptível nesses movimentos que os filmes suscitam e é bem difícil capturar em definições estáveis. Entre permanências e rupturas, o que se revela é um campo em constante disputa: quem pode existir de determinada maneira, quem tem sua experiência reconhecida, quem permanece à margem do visível. Pensar essas questões a partir dos quatro documentários deste programa é aceitar a instabilidade como parte do processo e se abrir para escutar, rever e imaginar outros modos de habitar o mundo.
Artista dos Rejeitos (Maintenance Artist, 2025) apresenta a trajetória singular da artista feminista estadunidense Mierle Laderman Ukeles, uma das vozes mais originais da arte contemporânea. Dirigido por Toby Perl Freilich, o filme acompanha como Ukeles revolucionou a forma de pensar a arte ao propor que atividades domésticas cotidianas, entendidas por “manutenção”, como limpar, cuidar da casa ou criar filhos, também podem ser reconhecidas como práticas artísticas a serem vistas e reconhecidas em instituições museológicas. O filme recupera a vida e o pensamento de Ukeles desde o final da década de 1960, quando escreveu seu influente Manifesto da Arte da Manutenção. Nesse texto, ela questiona por que tarefas cotidianas essenciais, repetitivas e, muitas vezes, invisíveis são desvalorizadas socialmente. A partir dessa reflexão, a artista passa a transformar ações cotidianas em performances que chamam atenção para o trabalho do cuidado e da manutenção, geralmente associado às mulheres — como trabalho não remunerado — ou a profissões pouco reconhecidas e precarizadas.
O filme também destaca a atuação de Ukeles como artista residente do Departamento de Saneamento de Nova York, onde desenvolveu projetos que aproximam arte e serviço público. Em uma de suas ações mais marcantes, ela cumprimentou milhares de trabalhadores da limpeza urbana, agradecendo individualmente por seu trabalho. Gestos como esse evidenciam sua proposta de tornar visível aquilo que sustenta a vida nas cidades, mas raramente recebe reconhecimento. Trabalho, gênero e sustentabilidade são temas que atravessam o documentário, que mostra a vida pessoal de Ukeles e os desafios de conciliar a carreira artística com a maternidade. Artista dos Rejeitos foi indicado ao prêmio de Melhor Documentário no Festival de Cinema de Tribeca em 2025, consolidando-se como obra relevante que amplia o alcance da proposta de Ukeles, conectando arte, meio ambiente e vida urbana.
Já Sem Dó Nem Piedade (No Mercy, 2025) nasce de uma inquietação bastante provocativa da diretora Isa Willinger: o cinema realizado por mulheres é mais brutal, mais violento? Inspirada por um comentário da cineasta ucraniana Kira Muratova, a pergunta serve de ponto de partida para entrevistar diferentes diretoras contemporâneas que compartilham suas experiências e modos distintos de fazer cinema, olhar e representar o mundo. Com base em conversas e trechos de filmes de diretoras como Catherine Breillat, Alice Diop, Céline Sciamma e Ana Lily Amirpour, o filme constrói um mosaico de vozes que não busca responder a uma ideia geral de “cinema feminino”, mas trazer as trajetórias artísticas singulares das realizadoras, marcadas por contextos culturais, políticos e pessoais específicos. Reduzir o trabalho dessas artistas à brutalidade ou à sensibilidade seria ignorar a complexidade de suas visões como cineastas.
Como fio condutor, é até interessante pensar o que significa a brutalidade no cinema. Seria uma mera representação explícita da violência ou a recusa em suavizar conflitos? Seria a coragem de abordar temas historicamente silenciados? Em várias falas, a brutalidade vincula-se menos ao choque visual e mais à disposição de encarar o incômodo. Violência de gênero, desigualdade, relações de poder e sexualidade emergem como temas recorrentes, sem a necessidade da sedução do espetáculo, mas como expressões de vivências concretas.
Outro ponto importante é uma reflexão histórica sobre quem conta histórias caracterizadas pela dureza. Durante décadas, a indústria cinematográfica foi predominantemente marcada pela presença da direção masculina, que moldou a forma como as mulheres eram representadas na tela. Ao ocupar a posição de criadoras, essas diretoras ampliam o repertório de narrativas e tensionam convenções estabelecidas. O que está em jogo não é apenas o conteúdo dos filmes, mas a própria linguagem como essas histórias são construídas.
A relação entre experiência pessoal e criação artística é outro aspecto abordado no documentário. Boa parte das cineastas falam de episódios de violência ou discriminação vividos fora das telas e que atravessam seus trabalhos de maneira direta ou indireta. O longa evita enquadrá-las exclusivamente como vítimas, na medida em que elas usam o cinema como instrumento de resposta, de elaboração de traumas e, em certa medida, de enfrentamento. Ao ver os trechos dos filmes e ouvir as diretoras, o espectador é convidado a perceber como determinadas escolhas estéticas são permeadas por visões de mundo. Sem Dó Nem Piedade procura entender por que a expectativa da brutalidade existe e o que ela revela sobre nossas próprias formas de ver. O filme desmonta estereótipos e sugere que o cinema, quando plural, é também um campo de disputa simbólica.
Rompendo Rochas (Ozak Ulalar, 2025), dirigido por Mohammadreza Eyni e Sara Khaki, é um documentário construído a partir da observação da rotina de Sara Shahverdi em um vilarejo rural no nordeste do Irã. Sua presença reorganiza relações, expectativas e até mesmo o modo como a câmera enxerga aquele território. Logo nas primeiras imagens, o gesto aparentemente simples de ajustar uma pesada porta de metal acaba por dar o tom do documentário. Tudo exige esforço, adaptação e quase um enfrentamento físico. Sem explicações diretas, o filme sugere que essa dificuldade ecoa algo maior: mudanças sociais que restringiram direitos e impuseram novas barreiras à autonomia das mulheres. É nesse terreno, entre o cotidiano e a metáfora, que o filme se desenvolve.
Shahverdi é a primeira mulher a ocupar um cargo no conselho de sua aldeia e enfrenta resistências constantes, muitas delas vindas de dentro da própria família. Sua atuação revela uma estratégia que combina pragmatismo e transformação. Ao negociar melhorias básicas, como a instalação de gás nas casas, ela condiciona esses avanços à ampliação dos direitos das mulheres, exigindo que elas passem a ser coproprietárias de seus lares. Pequenos deslocamentos que passam a ter um impacto estrutural. A câmera parece acompanhar os acontecimentos sem interferir, como se estivesse apenas testemunhando o desenrolar da vida. Em alguns momentos, essa escolha cria uma sensação de proximidade e autenticidade. Em outros, resulta em certa lentidão, deixando o tempo escoar. Essa oscilação revela tanto a potência quanto os limites dessa abordagem, que confia plenamente no fluxo da realidade e pode gerar momentos de grande intensidade, mas também trechos menos envolventes.
Quando os diretores optam por intervir de forma mais evidente na construção das imagens, o efeito é marcante. Cenas em que mulheres aprendem a andar de motocicleta, por exemplo, ganham simbologia e leveza. O que poderia parecer apenas uma atividade cotidiana se transforma em experiência de liberdade. Ao mesmo tempo, o documentário não ignora a dureza do contexto. Histórias como a de uma jovem destinada a um casamento precoce revelam o peso das estruturas sociais e legais que restringem escolhas. Esses momentos expõem um sistema que naturaliza desigualdades e silencia vozes. Rompendo Rochas convida o público a observar, sentir e refletir a partir da trajetória de Shahverdi, um exemplo de persistência em meio a obstáculos cotidianos.
Por fim, Escrevendo a Vida – Annie Ernaux pelos Olhos dos Estudantes (Écrire la Vie – Annie Ernaux Racontée par des Lycéennes et des Lycéens, 2025), dirigido por Claire Simon, observa jovens leitores em contato com a obra de uma das mais importantes escritoras contemporâneas, ganhadora do Nobel de Literatura em 2022. Em vez de entrevistas formais ou análises acadêmicas, o filme aposta na escuta de estudantes de diferentes regiões da França e também da Guiana Francesa, que conduzem, em meio às rodas de clubes de leitura, a reflexão, com dúvidas, descobertas e identificação.
Ao longo de décadas, a escritora Annie Ernaux construiu uma obra marcada pela exposição direta de suas experiências pessoais. Sua escrita evita ornamentos, metáforas complexas ou dramatizações excessivas. É uma linguagem que busca dizer o essencial com clareza, quase como se recusasse qualquer filtro entre a vida vivida e a palavra escrita. Esse estilo acessível e intenso da autora mobiliza os estudantes retratados no filme. Ao acompanhar discussões em salas de aula e espaços informais, o documentário revela algo que vai além da literatura: o encontro entre gerações. Os jovens leitores se reconhecem nas páginas de Ernaux, mesmo quando as experiências narradas pertencem a outro tempo. Questões como relações familiares, sexualidade, desigualdade social e escolhas difíceis surgem nas conversas de forma franca.
O que chama atenção é a liberdade com que assuntos considerados delicados são debatidos. Corpo, desejo ou violência são temáticas abordadas sem rodeios, tanto na obra da escritora quanto nas falas dos estudantes. Ainda que existam momentos de desconforto ou divergência, o ambiente é marcado por abertura e escuta. A escola funciona como espaço de transmissão de conhecimento e construção de pensamento crítico. A câmera de Claire Simon acompanha tudo de maneira discreta, quase invisível. Não há narração explicativa nem condução evidente. Esse olhar observacional cria a sensação de que o espectador está presente, partilhando aquelas conversas. Aos poucos, fica claro que o foco do filme não é apenas Annie Ernaux, mas o efeito que sua escrita produz.
Estudantes de origens distintas encontram pontos de contato com a autora a partir de suas próprias vivências. Questões de classe social, linguagem e pertencimento aparecem como pontes inesperadas entre mundos diferentes. Quando uma estudante continua refletindo sobre o que leu fora da sala de aula, ou quando um grupo leva a discussão para o cotidiano, fica evidente que algo se transformou na rotina dos estudantes. Em tempos em que o conhecimento muitas vezes é tratado de forma utilitária ou apressada, o filme lembra que a educação também é feita de pausas, escutas e perguntas sem respostas imediatas.
CAMILA VIEIRA é crítica, pesquisadora e curadora de cinema. Doutora em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), faz parte da equipe de curadoria de curtas-metragens da Mostra de Cinema de Tiradentes, desde 2018, e da Mostra Contemporânea de Curtas do festival CineOP, desde 2019. É coorganizadora do livro Mulheres Atrás das Câmeras: As Cineastas Brasileiras de 1930 a 2018, finalista do 62º Prêmio Jabuti na categoria Ensaios-Artes em 2020. É integrante da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).
Serviço:
15ª Mostra Ecofalante de Cinema
Data: de 28 de maio a 10 de junho de 2026
Entrada: gratuita
Site oficial: www.ecofalante.org.br
Redes Sociais: @mostraecofalante